domingo, 31 de outubro de 2010

LEITURA E O MECANISMO COGNITIVO

          Quando falamos em processos cognitivos o complexo humano apresenta uma infinidade de estruturas e elementos capazes de realizar funções mentais diversas, segundo a necessidade que se lhe apresenta. Algumas são puramente instintivas e são ativadas quando existe uma exigência orgânica em face de algum desequilíbrio a ser suprido, como é o caso da fome, sede, dor, etc. Outras se desenvolvem espontaneamente, principalmente quando o indivíduo está inserido no meio social e absorve por osmose algumas atividades dos seus semelhantes próximos; a faculdade da fala é um bom exemplo dessa espontaneidade, a criança aprende a falar interagindo verbalmente com os pais e irmãos mais velhos e amplia seu vocabulário na escola com os outros alunos de classe. Evidentemente que este processo se torna truncado quando se trata de deficientes auditivos e alguns deficientes mentais.
         
          No caso da leitura o aprendizado é invito, o tirocínio, isto é, a prática inicial dessa atividade, não acontece de livre determinação, é necessário que haja uma condução sistemática e na maioria das vezes institucionalizada através de um programa metódico com o objetivo de preparar para esta atividade. O ato de ler exige um trabalho árduo, longo, forçoso, ordenado e progressivo.

          Importante observar que sem a compreensão não há leitura, existe apenas a percepção sensorial.
 
         Nesse tópico vamos analisar a leitura e os principais processos inerentes a esta atividade. Como vimos anteriormente o ato de ler envolve uma série de fatores que interagem entre si formando a mecânica cognitiva. Para melhor compreensão desta matéria vamos apresentar um modelo didático do caminhamento das informações desde a apreensão sensorial até o arquivamento efetivo nas áreas superiores da memória.
 
          A porta de entrada das informações do mundo exterior para a mente ocorre ao nível dos órgãos sensoriais, no caso da leitura escrita essa entrada pode ocorrer de duas formas: através da visão, a mais comum; e através do tato digital, geralmente utilizado por pessoas com alguma deficiência visual.
 
          A captura das imagens ou a percepção tátil de um escrito acontece analogamente como em qualquer objeto, o órgão sensorial recebe as impressões conforme sua função específica e a transcodifica em impulsos nervosos que são levados ao cérebro, por intermédio do arco-reflexo neural, numa cadeia de neurônios exclusiva para essa finalidade.
 
          Ao chegar à área especifica do cérebro que lida com o tratamento dessas informações, inicia-se, então, o processo mental cognitivo de processamento do núcleo da leitura como representação léxico-mental que partem dos níveis visual-ortográfico, passando pelo semântico-interpretativo, gerando a compreensibilidade e por fim o arquivamento erudito.
 
          O primeiro nível desse processo é denominado de memória seccional ou memória volátil, neste ambiente as informações são assimiladas por um curto período de tempo em virtude de que sua principal função é de armazenar e repassar imediatamente aquilo que é captado pelos órgãos sensores.
 
          Nesse estagio abrigamos os dados de ilação imediata, que são processados em forma de “pacotes” de informação enviados para o nível imediatamente superior, sem a preocupação de análise ou interpretação do que está recebendo.
 
          Essa memória, dependendo da eficiência do leitor, faz o reconhecimento dos dados inicias e secciona-os, ou seja, letra por letra, silaba por silaba, palavra por palavra ou mesmo por blocos de palavras como no caso da leitura dinâmica. Sendo que a média de armazenagem é de quatro unidades significativas: letra, silaba ou palavra.
 
          Exemplificado a dinâmica dessa memória vamos verificar uma situação hipotética: um indivíduo que só consegue ler as palavras letra a letra, este terá grande dificuldade em decifrar palavras maiores como paralelepípedo, cuja leitura se dará da seguinte forma p-a-r-a-l-e-l-e-p-í-p-e-d-o, quando se estiver lendo l-e-p-í, já estará esquecido o começo da palavra, pois estas letras estão colocadas entre a sétima e a décima unidades significativas, ficando as primeiras sem sentido para os níveis superiores, conseqüentemente não conseguirá lê-la. O mesmo acontece nos outros casos sendo um pouco mais complexo, isso porquê os mecanismos que formam o reconhecimento das frases se encontram débeis e o encadeamento processual é rompido eliminando assim o exercício da leitura.
 
         Comparativamente são os editores de textos atuais dos computadores, na medida em que o usuário vai construindo o texto a interface inicial apenas interage teclado e monitor (memória seccional), em seguida quando já se tem um grupo de palavras ou ao passar certo intervalo de tempo, o próprio programa do editor lança os dados numa memória mais perene (níveis superiores da memória), evitando assim a perca de dados por uma falha acidental ou por falta de energia elétrica.
 
 
          O próximo nível é denominado de memória intermediária que é o elemento de ligação entre a memória seccional e a memória semântica. Nesta área cognitiva estão as informações mais recentes e usuais, ou seja, o repositório do nosso vocabulário usado no dia-a-dia, portanto, é o local onde se dá a compreensão imediata dos dados recém chegados, pois lá existe uma série de elementos comparativos que darão o sentido e decifração ao que se está lendo.
 
          Quando a compreensibilidade acontece de forma precária, essa memória trava obrigando o leitor a parar e reler o texto escrito, se isso acontece mais vezes surge a partir daí uma reação de repulsa mental induzindo o indivíduo a abandonar a leitura. É por isso que o exercício de ler requer perseverança e treinamento constante, caso contrário, como somos compelidos a agir pelo menor esforço, certamente, desistiremos deste hábito tão salutar.
 
          Um ponto positivo da memória intermediária é a capacidade de inferência, isto é, a capacidade de dedução ou “adivinhação’’ do que se está lendo; quando o leitor é hábil ele não precisa ler a palavra completa para compreendê-la semanticamente, ou seja, sua relação de significação no sentido enunciado. Para isso as primeiras e ultimas letras já são suficientes.
 
          Em níveis mais elevados de leitura a inferência permite que se decifrem blocos de frases inteiros sem afetar a percepção e de tal forma que a compreensão seja satisfatória do conteúdo escrito: é o que acontece na leitura dinâmica.
 
          Com a finalidade de observar melhor a ação da inferência no mecanismo cognitivo, vamos nos valer dos anagramas alfanuméricos da ilustração a seguir onde letras e números estão misturados de forma proposital e não aleatória.
 
          Para melhor visualização do conteúdo da ilustração 01 e obtermos um resultado a contento do que queremos provar, permitimo-nos sair do padrão de formatação oficial, ou seja, utilizamos fonte, tamanho da fonte, recuo, espaçamento e alinhamento diferentes da estabelecidas pela ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas.

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3M D14 D3 V3R40, 3574V4 N4 PR414, 0853RV4ND0 DU45 CR14NC45 8R1NC4ND0 N4 4R314. 3L45 7R484LH4V4M MU170 C0N57RU1ND0 UM C4573L0 D3 4R314, C0M 70RR35, P4554R3L45 3 P4554G3NS 1N73RN45. QU4ND0 3575V4M QU453 4C484ND0, V310 UM4 0ND4 3 D357RU1U 7UD0, R3DU21ND0 0 C4573L0 4 UM M0N73 D3 4R314 3 35PUM4.
 
4CH31 QU3, D3P015 D3 74N70 35F0RC0 3 CU1D4D0, 45 CR14NC45 C41R14M N0 CH0R0, C0RR3R4M P3L4 PR414, FUG1ND0 D4 4GU4, R1ND0 D3 M405 D4D45 3 C0M3C4R4M 4 C0N57RU1R 0U7R0 C4573L0. C0MPR33ND1 QU3 H4V14 4PR3ND1D0 UM4 GR4ND3 L1C40;
 
G4574M05 MU170 73MP0 D4 N0554 V1D4 C0N57RU1ND0 4LGUM4 C0154 3 M415 C3D0 0U M415 74RD3, UM4 0ND4 P0D3R4 V1R 3 D357RU1R 7UD0 0 QU3 L3V4M05 74N70 73MP0 P4R4 C0N57RU1R. M45 QU4ND0 1550 4C0N73C3R 50M3N73 4QU3L3 QU3 73M 45 M405 D3 4LGU3M P4R4 53GUR4R, 53R4 C4P42 D3 50RR1R! S0 0 QU3 P3RM4N3C3 3 4 4M124D3, 0 4M0R 3 C4R1NH0.
 
0 R3570 3 F3170 D3 4R314

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Ilustração 01 - Fonte:
Blog Pelotas Vip
 
          A primeira reação quando vemos esse quadro é de procurar ler as unidades significativas uma a uma, ou seja, as letras e os números individualmente, o que naturalmente não trará nenhum sentido. Inicia-se então a ativação da memória seccional que não conseguirá formar os “pacotes” de informação de forma lógica para o nível superior, pois, percebemos apenas caracteres alfanuméricos misturados e sem cabimento seja lexical ou textual.
 
          Com um pouco mais de cuidado e rapidez, passamos a compreender que existe uma mensagem implícita nesse texto, e com o percorrer mais rápido da vista fica ainda mais fácil decifrar o que está escrito, até que a partir da segunda linha o escrito se revela mais claro e a leitura está inteiramente proveitosa.
 
          É isso que acontece por ação da memória intermediária; uma vez repleta de elementos comparativos com dados de uso freqüente, imediatamente faz as correlações das possibilidades do anagrama dando-lhe um sentido lógico formulando as palavras e frases resultando na coerência ao texto.
 
          A experiência pessoal com alguns indivíduos do nosso convívio particular, quando mostrado esse texto, de maneira empírica e sem a intenção de formular dados estatísticos ou qualquer princípio de levantamento cientifico, nos revelou algumas observações interessantes:
 
  • Um leitor mediano apresenta maior dificuldade de perceber a formulação textual do que um leitor hábil; 
  • A percepção inicial dos anagramas em palavras, em todos os casos, demandou certo período de tempo conforme a habilidade individual. Isso acontece em virtude de que os leitores ainda estavam presos aos padrões sintáticos da língua portuguesa;
  • Com a compreensão já efetivada associada à velocidade com que os olhos percorrem as linhas, o leitor tem a ilusão de ótica que não existem números, apenas letras formando as palavras.
 
          Outro aspecto interessante é a solução de palavras cruzadas: primeiramente o indivíduo tem um guia ou uma pista que é a deixa para se achar o vocábulo incógnito, em seguida a quantidade de letras representada por quadrinhos e por fim as letras comuns de duas ou mais palavras que se cruzam. Com a inferência a solução se dá de maneira automática, sem precisar na maioria das vezes ler o guia para se descobrir o vocábulo oculto
 
          Uma faceta a ser observada, reside no fato de que a memória intermediaria não apenas realiza comparações lexicais, mas também em formas, cores, objetos, texturas e tudo mais relativo às imagens. Isso muitas vezes provoca algumas impressões: determinadas fontes, por exemplo, podem causar determinada Influência que pode repercutir no ânimo ou no humor do leitor, isto é, têm a condição de dar a impressão de medo, de brincadeira, de seriedade, de alento, de romantismo, etc., por essa razão os especialistas em marketing quando querem causar algum efeito em suas propagandas, dependendo da finalidade específica, escolhem uma fonte gráfica adequada em forma, textura e cor de modo que possa chamar a atenção do espectador e despertar-lhe atenção em seus objetivos.
 
          A indução ocorre quando a memória intermediaria é estimulada; correlaciona a imagem escrita com o acervo de informações prévias e induz o sujeito a uma reação psicológica equivalente ao estímulo efetuado, gerando assim uma reação emocional por obtenção desse processo.
 
          O último estágio cognitivo é denominado de memória profunda, memória semântica ou memória longo termo. Esta área é responsável pelo arquivamento, organização e regramento das informações obtidas e processadas pela memória intermediária, em uma palavra: a erudição, isto é a instrução vasta e variada, adquirida, sobretudo pela leitura.
 
         O real funcionamento da memória semântica como um todo e os processos envolvidos é motivo ainda de estudos exaustivos, a compreensão e a constatação das aplicações que encerram as ações dessa área cerebral é alvo de inúmeras teorias, pois muitas de suas atividades representam um enigma para a ciência. Mesmo assim com o pouco que se sabe, é fascinante vislumbrar todos esses processos que refletem a inteligência, habilidades e competências do ser humano.
 
          Dotada de três incumbências essenciais, a memória semântica tem como primeiro papel organizar todas as informações que a ela chegam, fazendo uma triagem complexa, formando diversas seqüências associativas, conforme seu interesse e a capacidade de ordenação, esse fenômeno entra em consonância com o grau intelectual do indivíduo, ou seja, um homem letrado tem maior condição de seqüenciar informações nessa memória gerando uma leitura e assimilação proficiente, já o mediano sente-se confuso por falta de elementos instrucionais suficientes para uma boa decifração.
 
          Esse trabalho é semelhante ao de um bibliotecário virtual que tem em seu poder uma vasta e heterogênea coleção literária de informes; com a habilidade de triar, arquivar, formar e desenvolver um diretório, realizar buscas quando solicitadas e traçar hipertextos para relação mútua entre dois ou mais termos.
 
          O arquivamento é seletivo e personalizado, cada pessoa tem seu próprio esquema de resguardar as informações com características próprias em seus aspectos: visual, olfativo, tátil, palatal, emocional, instrutivo, etc. de tal forma que esse acervo pode datar dos acontecimentos da vida intra-uterina, alem de ter uma continência incalculável.
 
          O regramento é outra característica importante. Essa memória tem como predicado estabelecer a regência do fluxo das informações: os dados que entram como serão processados e armazenados; e os que saem como correlacioná-los com outras ações cognitivas e resultar em um determinado efeito.
 
          A leitura de um romance, por exemplo, pode levar o leitor a sentir diversas emoções: tristeza, alegria, graça, raiva, etc. dependendo de como o autor narra seu escrito. Mesmo se tratando de uma ficção as reações emotivas eclodem em virtude do processo de interação correlacionado através da memória semântica com os conhecimentos e experiências vividas pelo sujeito e de que forma as lembranças parciais ou efetivas vão influenciar no caminhamento dessa leitura, induzindo as fantasias e devaneios.
 
          O conhecimento técnico é ampliado também nessa memória. Iniciando por noções elementares que vão se somando a outros dados à medida que novas informações vão sendo adquiridas. A memória semântica seqüencia, relaciona e dá sentido a esse conhecimento, provendo-o de elementos cognitivos capazes de fornecer o reconhecimento imediato de sua aplicação dentro de um determinado contexto.
 
          Em suma, para nossa fixação da mecânica cognitiva da leitura apresentamos o seguinte esquema na ilustração 02:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fluxo do impulso nervoso e das informações.