quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

LEITURA, INTERPRETAÇÃO E CRÍTICA



Leitura

       
        Ler não é somente ver como quem enxerga um objeto  e a compreensão não é atributo único da leitura, é muito mais abrangente porque envolve a manifestação cognitiva dos cinco sentidos do ser humano, ou seja, nós temos a condição de diferençar quando uma formiga caminha por nossa pele de um toque de dedos chamando a nossa atenção; distinguir os sabores doce, azedo, amargo e salgado dos alimentos; reconhecer a diversidade e intensidade dos sons; saber com exatidão cada fragrância das emanações voláteis dos corpos, tudo isso causando-nos impressões diversas.

         A visão, considerada o mais importante dos sentidos do homem, consegue distinguir as cores, formatos, texturas, tamanho, profundidade, proximidades e imediações, tudo isso de forma tridimensional. A isso chamamos de reconhecimento, que se processa igualmente aos outros sentidos. No caso, o ato de ler abrange outros aspectos: percepção sensorial, reconhecimento, compreensão, decifração e cognição.

      Como sabemos a leitura é uma atividade intelectual, progressiva e não espontânea. Partindo do ponto zero, o que chamamos de tábula rasa, para se ensinar a ler deve-se institucionalizar uma criança na sua segunda fase da infância para que com a orientação especializada e o contato social com outras de idade aproximada, possa com mais eficácia ter os primeiros contatos com as estruturas que construirão o hábito de ler.



      Segundo o INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, órgão ligado ao Ministério da Educação: a infância se divide em três fases: a primeira que vai de zero aos três anos, quando na formação da primeira dentição; a segunda dos três aos sete anos com a segunda dentição e a terceira terminando com o aparecimento da puberdade sendo que com as meninas aos doze anos e os meninos ao quatorze anos, aproximadamente.


       Embora que muitos pais introduzam seus filhos na escola a partir da segunda metade da primeira infância, é a fase seguinte mais adequada para os primeiros contatos com os elementos cognitivos da leitura: é quando se passa a conhecer as primeiras letras e seus fonemas, o elo da ligação visual gráfica e ao som que ele representa fazendo a correlação com seu vocabulário adquirido, auxiliado por imagens conhecidas do seu cotidiano: animais, plantas, objetos, etc.


       Com a continuação dos estudos o passo seguinte são as combinações grafemáticas formando as sílabas e monossílabos, dando-lhes o sentido e associando-os com temas mais complexos, porem de fácil alcance; então continuando até a formação das palavras, cuja ordem das seqüências inteligíveis formará as frases e períodos, que por sua vez em coleção construirá os textos. Sempre de forma seqüencial, crescente e sistematicamente progressiva. Esses textos existem para exprimir as idéias de seus autores, pois a escrita é a forma de representar graficamente o som. Como o som se perde ao vento, surgiu desde cedo à necessidade do homem em registrar os ditos tanto das celebridades quanto dos entes humildes e apagados na estrutura social.




      O encadeamento dessas idéias escritas edifica uma nova estrutura textual de compreensão e assimilação, função basilar das obras literárias de qualquer assunto: o contexto. Contextualizar significa conceber o texto como um todo, arquitetar a ordem e o sentido do pensamento de forma que a composição possa ter uma função de impressionar nossa percepção organoléptica e emocional, é a constituição da expressão pessoal do autor em mensagens expostas do que é concreto ou abstrato que lhe sai do intimo criativo e dissertivo.



        O hipertexto é um sistema mais complexo, pois consiste em uma maneira de apresentar e de organizar vários escritos ao mesmo tempo, formando blocos de textos articulados e interligados em conexões diversas e associativas, entretanto numa única linha de estrutura de pensamento ou idéia. 
Importante observar que as articulações do hipertexto seguem uma direção lógica e precisa que dependendo da riqueza de informações que se quer apresentar pode ter característica multidisciplinar.




Interpretação


       Quando se fala em simplesmente ler, entende-se que seja a decifração daquilo que está escrito apenas. Isso acontece porque existem pessoas que lêem de forma corrida, compreensível aos ouvintes, no entanto não sabem o que está lendo, ou seja, recitam a escrita, mas não entendem o seu contexto.


       São os chamados leitores precários e desqualificados que se ocupam em declamar os escritos para outras pessoas, como é o caso de diversos pregadores que encontramos não raramente em praças públicas recitando passagens bíblicas; vendedores ambulantes que lêem propagandas de medicamentos na venda de remédios avulsos; candidatos políticos, especialmente na zona rural, com seus discursos pré-escritos e mal elaborados, etc. Embora leiam corretamente em virtude de um treinamento, dificilmente sabem o significado dos vocábulos ali presentes porque são pouco usuais, portanto nota-se claramente a inexistência da compreensão lexical.  

         A interpretação propriamente dita é um plano diferenciado da leitura cognitiva, quem a adquiriu pode ser é considerado como um leitor qualificado, pois alem de decifrar palavra por palavra ele entende o significado da mensagem que o texto tenta exprimir.
     Muitos se enganam por achar que interpretar é uma atividade simples e directiva com apenas uma linha reguladora que traça e leva a termo um plano de ação decifratório, no entanto tornar suficientemente claro o sentido das palavras, frases e textos abrange muitos elementos e sob diferentes aspectos.

      Na Língua Portuguesa, por exemplo, a posição de um sinal de pontuação modifica completamente o sentido de uma frase; uma palavra que tem inúmeros significados pode confundir o leitor e deturpar a mensagem que o autor quer transmitir, especialmente se este vocábulo estiver associado a gírias e expressões idiomáticas; expressões anfibológicas: construídas com ambigüidade de sentido, quem ler perde a referência do escrito; os pídgins pertencentes a determinadas profissões muitas vezes formam um dialeto a parte e restrito, como nos casos da linguagem dos profissionais da informática, médicos, advogados, etc.



Observemos as seguintes frases:


a)     Quem canta seus males espanta!
b)     Quem canta seus males, espanta!
c)      Ela tem um comportamento legal.
d)     Ia pela estrada o menino, o bezerrinho e a sua mãe.
e)    O paciente está acometido de cefaléia de etiologia edemática.

      Nos exemplos A e B: podemos observar que apenas uma vírgula modificou completamente o sentido da expressão. No exemplo C o termo “legal” pode se referir: de acordo com a lei ou simpatia. Na frase D: o termo “mãe” estaria relacionado ao menino ou ao bezerrinho? E por fim, a última expressão é carregada de termos médicos de difícil acesso aos leigos.


       Conclui-se, então, que para interpretar bem um escrito se faz necessário um conhecimento amplo, apurado e multidisciplinar, em suma: quanto maior o vocabulário lexical que uma pessoa detém, mais fácil e maior será a capacidade de compreensão literária do indivíduo. Por isso é que denominamos de leitor qualificado.



Crítica


      Epistemologicamente falando, criticar é uma faculdade do ser humano em conjecturar, analisar, apreciar e exercer julgamento de uma determinada matéria ou assunto, emitindo posteriormente uma opinião pessoal sobre as impressões apuradas.


       
            Em termos filosóficos, crítica é uma atitude que consiste em separar o que é verdadeiro do que é falso; o que é legítimo do que é ilegítimo; o que é certo do que é verossímil.
         A crítica é comum a todas as pessoas, pois se trata de uma das mais fortes expressões da cognição humana. A partir do momento em que se vê, escuta ou sente-se algo, imediatamente o nosso senso de juízo delibera pareceres sobre o ocorrido a partir das reações psicológicas trazidas por essas sensações, o próximo estímulo é verbalizar e socializar essas idéias formadas.

       Por exemplo, quando lemos uma obra literária, ela pode ser agradável ou não ao nosso emocional. Instantaneamente construímos um conceito sobre essa obra e criamos uma opinião: ela é boa ou ela é ruim. Isto é uma crítica.


      Como a criticidade envolve fatores psicocognitivos muito pessoais: experiência de vida, conhecimento multidisciplinar, gostos, etc. existe dessa forma neste conceito uma grande subjetividade, ou seja, o que pode ser ótimo para um crítico, pode ser péssimo para outro.
Há pessoas que criticam por criticar, emitem suas opiniões de forma leviana e irresponsável, e o pior, se acha detentoras da verdade absoluta. Tudo isso fruto da própria mediocridade conceitual oriunda da falta de informações produtivas que poderiam enriquecer esses pareceres.
    
       A crítica não tem de ser necessariamente negativa ou contrária a tese formulada, ela pode ser concordante desde que os argumentos apresentados sejam firmados e consonantes com a verdade apresentada.

      Outro parâmetro sobre o critério crítico reside em dois aspectos fundamentais: a análise que é a decomposição do texto em partes, examinando com minúcia as relações existentes entre elas e determinando a conformidade da organização textual, e a síntese que é a reunião dos elementos da construção do escrito em sumário, destacando seus pontos essenciais e obedecendo a seqüência lógica da idéia que o autor possa expressar.     

      Portanto, no caso da leitura, ler e interpretar não são ações suficientes para ampliar os conhecimentos; certamente poderemos dilatar o nicho das informações pessoais, mas sem o senso crítico o leitor poderá lançar uma opinião que não esteja embasada de bons argumentos, embora possa pareçer verdadeira e dotada de certa lógica, mas poderá incorrer no risco da formação de um preconceito.




      Os sofismas são armadilhas que muitos caem por não saberem julgar criteriosamente o caráter do espírito representativo de uma premissa, principalmente quando esta desvirtua a exatidão de uma realidade, transformando-se em dogmatismo.


    Deduzimos então, que a crítica para ser excelente, bem construída, coerente e bem fundamentada, a ponto de formar opiniões, exercer domínio sobre o tema e abrilhantar a matéria, demandará, naturalmente, uma boa bagagem de conhecimento interdisciplinar por parte do crítico, que deverá estar aberto para discutir racionalmente essas idéias; possuir humildade pedagógica a ponto de mudar de opinião, quando for o caso; ter coragem para se expor e também de ser criticado. 

2 comentários:

  1. Marco você é um verdadeiro Intelectual, sempre com palavras difíceis, da sua aluna aldenice. Muito bom

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